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Feb. 9th, 2008

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On Vox: Hobbies e necessidades

Ontem dei uma rápida passada na Saraiva do Shopping Ibirapuera.

Cara, como eu gosto de literatura!

É bobeira eu tentar me convencer que se trata de hobbie, tão somente.

Se eu tivesse grana e tempo disponíveis, acho que compraria tudo ali dentro.

Tolstói, Dostoiévski, Nabokov, Walt Whitman, Kerouac, Bukowski, Fernando Pessoa, Ítalo Calvino, Jorge Luis Borges, García Marquez, Kafka, ah!, tantos autores que eu quero me iniciar ou conhecer melhor. Quero? Preciso? Não sei.

A vida é uma questão de escolha.

Pura e simplesmente.

Eu fiz a escolha de estudar algo mais sério.

Mais... relevante.

Em detrimento da ficção, que permanecerá, a princípio, como falso hobbie.

E negligencio assim uma parte de mim.

Originally posted on rafikz.vox.com

Jan. 8th, 2008

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A piada



O ar estava mais leve naquele dia. Mal sentia o vento passando à sua face. Finalmente realizava o sonho de voar. Agora faltava pouco. Em breve se livraria de todas as algemas terrenas.


Enquanto caía, teve tempo de relembrar sua vida. Ora, parte dela. Nunca teve uma boa memória, não seria nesse momento fatal que haveria uma mudança. Aliás, não muito havia a ser lembrado. Pensou no último verão, há alguns meses. O sol escaldante a ferver seus pulsos cortados. Fracasso. Acordara, decepcionada, numa alva cama de hospital, mãe chorando, quase que se sentindo culpada, ao menos foi o que quis acreditar naquele momento de fúria. Por que a tinham salvo? Quem tinha direito a sua vida senão ela própria? No lugar de sua progenitora, sentiria também remorso por possuir esse egoísmo doentio de prender os filhos ao lado, mesmo que evidentemente infelizes. Enfim, não queria ter raiva de sua mãe. Queria morrer em paz. Tentou lembrar de um momento feliz, sem sucesso.

O chão aproximava-se mais e mais, menos de 20 metros pela frente. Uma estranha angústia subiu-lhe à boca. Sentiu-se fraca. Poderia morrer sem nunca ter experimentado alegria? Não teria mesmo dado sequer UMA risada durante toda a vida? Ou estaria sob efeito de uma espécie de bloqueio mental a fim de justificar sua entrega final? Ora, ela fora feliz! A perda do contentamento que ocasionara a depressão, certo? Lembra, lembra! O chão ficava mais próximo, a aflição aumentava. Seus irmãos pequenos brincando no parque...NÃO!, ela não tinha irmãos. Seus avós fazendo carinho, o velho calor familiar... Lembrou-se logo que desde sempre vivera só com sua mãe, nunca chegou a conhecer outro parente! História longa, não havia tempo para isso. 10 metros. 16 anos de vida e nada de prazer? 5 metros. Começava a lembrar de uma piada que ouvira de um garoto sacana querendo soar simpático, menino este que viria a ser seu primeiro namorado, mas acabou atingindo o chão antes de concluir o raciocínio. Rapidamente formou-se uma considerável poça de sangue ao seu redor, alguns pedaços de dentes espalhados pelo chão, e muita, mas muita, decepção no ar. A piada, agora concluía, não tinha a menor graça.
                                                                                                                                                 

Dec. 28th, 2007

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A Explicação

Uma vez escrevi sobre a informatização no espiritismo – tinha lido em algum lugar que os computadores substituiriam os médiuns – e, como esperava, recebi algumas cartas de protesto contra o comentário, considerado desrespeitoso.

Está certo, deve-se respeitar a crença dos outros. Talvez a descrença seja apenas uma falta de imaginação. São tantas, tão variadas e tão literariamente atraentes as explicações metafísicas sobre o que, afinal, nós estamos fazendo neste mundo e o que nos espera no outro que não crer em nada, longe de ser uma atitude racional e superior, é uma forma de burrice.

De não saber o que se está perdendo. O negócio é ser pós-moderno e desistir conscientemente do racionalismo, pois, se as explicações finais são tão impossíveis quanto as utopias – e a própria física, quanto mais descobre sobre o mundo, mais perplexa fica –, então o negócio é voltar à mágica e ao deslumbramento primitivo, que são muito mais divertidos.

É verdade que eu sempre achei a explicação de que não há explicação nenhuma, ou pelo menos nenhuma que o cérebro humano entenderia, a mais fantástica de todas, mas reconheço que é um sumidouro. Não a recomendo. Toda a força, portanto, à imaginação, a todas as escatologias, a todas as seitas e a todos os santos. Tudo se resume naquela música – ou é apenas uma frase? – do John Lennon, Whatever Gets You Through The Night. O que ajudar você a atravessar a noite, está certo. É difícil lidar com toda essa herança que a gente recebe junto com um corpo e uma mente, uma vida finita num universo infinito, sem nem um manual de instrução. No escuro, todas as respostas são válidas, todas as crenças são respeitáveis.

Eu, por exemplo, estou desenvolvendo a tese de que a explicação de tudo está na alcachofra. Ainda não sei bem onde isto vai me levar, mas sinto que estou perto de uma revelação. Deus é uma alcachofra. Quando desenvolver melhor a idéia, volto ao assunto.

Autor: Luís Fernando Veríssimo
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/08/2000

Dec. 19th, 2007

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La Haine (1995)



Sempre que penso em cinema francês, automaticamente lembro de filmes delicados, construídos lenta e cuidadosamente. Le Fabuleux destin d'Amélie Poulain seria um exemplo imediato da sutileza a que me refiro.

Pois bem, ao assistir O Ódio, é de bom grado colocar todo esse conceito prévio de lado e, se for o caso, buscar um lugar comum em filmes como Cidade de Deus e Ônibus 174, para citar alguns nacionais.

Após um motim em que, por abuso policial, um jovem árabe acaba em estado crítico de saúde, somos apresentados a um intrigante trio de jovens, moradores de um subúrbio em Paris, composto por Vinz (Vincent Cassel), judeu revoltado e ansioso por vingança, Hubert (Hubert Koundé), pugilista negro que constantemente analisa o comportamento daqueles a sua volta, e Saïd (Saïd Taghmaoui), descendente árabe muito falante que funciona por diversas vezes como agente pacificador. Durante o tal motim, um oficial acaba perdendo sua arma, que é encontrada justamente por Vinz. Este jura matar um policial se o jovem ferido de fato morrer. Se a trama, por si só, já é razoavelmente delicada, diversos imprevistos acabam por tornar a jornada desse trio numa derrocada iminente.



Tendo por fundo esse clima hostil, Mathieu Kassovitz trata de temas importantíssimos do mundo contemporâneo: a exclusão social, a violência, o racismo e o abuso por parte das autoridades. Até que ponto as pessoas são culpadas por reagirem com violência à opressão sofrida? Hubert argumenta: "Na escola, aprendemos que ódio só traz ódio". Vinz retruca: "Eu não sou da escola. Eu sou da rua. E sabe o que ela me ensinou? Dê a outra face, você tá morto!".

Na atual conjuntura, em que o prefeito César Maia afirma que a Rocinha é "uma fábrica de bandidos", jogando para a população a culpa de não terem uma educação decente e um mínimo projeto de vida, interessante é lembrar, mesmo que por meio da arte, o efeito causado pela exclusão.

A trilha sonora é recheada de hip-hop e música urbana, servindo como protesto contra os "porcos" (policiais).

Curiosa é a opção do diretor, mesmo sendo o filme gravado em cores, de exibi-lo em preto e branco. Sou obrigado a confessar que talvez esse seja meu filme preferido a tomar tal decisão desde Touro Indomável. Já que esbarro acidentalmente - ou nem tanto - em Robert De Niro e Martin Scorsese, não posso deixar de assinalar a inspiração que Traviz Bickle, de Taxi Driver, causa no personagem de Vincent, quando da sua tentativa de fazer justiça com as próprias mãos.

Um excelente estudo do ódio, acima de tudo.



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C'est l'histoire d'un homme qui tombe d'un immeuble de 50 étages, le mec au fur et à mesure de sa chute il se repete sans cesse pour se rassurer :

Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...

Mais l'important c'est pas la chute,
C'est l'aterrisage.


C'est l'hisoire d'une société qui tombe, et au fur et à mesure de sa chute se repete sans cesse pour se rassurer :

Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...
Jusqu'ici tout va bien...

Mais l'important c'est pas la chute,
C'est l'aterrisage.


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Nota: 8,0

Dec. 15th, 2007

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La Battaglia di Algeri (1966)



A autodeterminação dos povos é um direito que as populações habitantes de um determinado território que compõem ou não um estado-nação (tríade Estado – Povo – Território) têm de afirmarem perante todas as outras populações sua capacidade de se auto-governarem, manterem a criação cultural e tradições próprias, e terem soberania, e de constituirem as suas próprias leis. (Wikipedia)

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Quando do seu lançamento em 1966, em meio ao contexto de descolonização e guerras de independência, o filme A Batalha de Argel foi acusado de ser mera propaganda comunista e terrorista, por parte dos setores de Direita em vários países, sendo inclusive banido na França por cinco anos, neste caso por mostrar cenas de tortura por parte das tropas francesas durante o conflito em questão (1954-1962).



Inegável é o forte sentimento nacionalista retratado durante toda a obra e a tentativa de desvencilhamento à potência opressora européia por parte dos revoltosos. Por outro lado, não devemos desconsiderar a imparcialidade de Gillo Pontecorvo ao demonstrar os atentados terroristas cometidos por ambas as partes. Em nenhum momento a Frente de Libertação Nacional (Front de Libération Nationale - FLN) foi inocentada dos ataques cometidos. A presença de crianças quando da explosão da primeira bomba no restaurante, logo no começo da batalha, torna clara a posição isenta de Pontecorvo. Aliás, o elemento infantil é utilizado durante toda a película como símbolo do preço pago pela população civil, independende do lado combatente.



Guiado em parte pela corrente neo-realista italiana, Pontecorvo nos entrega, com maestria, uma obra que retrata com tanta precisão o ataque francês à horda revoltosa argelina, que chega a beirar por muitas vezes o aspecto de um documentário. Cumpre ressaltar, aqui, que, embora o A Batalha de Argel tenha se baseado em eventos verídicos, alguns personagens tiveram seus nomes e características trocados ou sintetizados, a fim de representarem não homens, mas toda uma civilização ocidental, como no caso do "Coronel Mathieu".

Além do aspecto visual, chama atenção também, durante as proveitosas duas horas de duração, a força da vertente sonora, ora pela angustiante ululação das mulheres argelinas, ora pelo batuque típico da região.

Clamada foi muitos como a revolução mais sangrenta que se tem notícia, podemos através desse filme ter um contato mais direto com o que de fato ocorreu, já que, infelizmente, o nosso sistema de ensino regular costuma ignorar a relevância de tal insurreição, citando-a, quando muito, superficialmente.

Nota: 8,5/10

Dec. 13th, 2007

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Repulsion (1965)




Somos criados para seguir uma certa linha de ação. A sociedade nos induz a proceder conforme um padrão definido. Os homens devem gostar das mulheres; as mulheres, dos homens. A mulher deve aparentar fragilidade; o homem, firmeza. Quem ousa fugir desse modelo é tachado de estranho, anormal.

Bem, em Repulsa ao Sexo (1965), somos introduzidos ao mundo de Carole Ledoux, uma belga em Londres. Loira, bela. E com forte aversão a qualquer intimidade com homens. Em certo diálogo durante o filme, um personagem masculino afirma: "Não há razão para ficar sozinha, sabe?" É o pensamento comum: uma mulher bonita não deve ficar só.

Fantástica é a forma como Roman Polanski transforma a viagem da irmã de Carole, Hélène, num processo de desfragmentação da personagem principal. Sozinha no apartamento, a loucura e obsessão tomam controle. Simbolicamente, o apodrecimento dos alimentos representa a deterioração da sanidade de Carole. Operários que se insinuavam para ela nas ruas, agora a visitam no quarto, abusam sexualmente da mesma. O persistente som do sino ao lado de fora é o prenúncio do perigo que se aproxima. A marcante trilha sonora se faz presente durante toda a obra, silenciando-se nos momentos de maior ação, muitas vezes, e causando atordoamento conforme o controle emocional da protagonista se desfaz.



Devemos culpar Carole por eventuais crimes que viesse a cometer? Ora, ela havia se fechado em seu mundo. Qualquer interferência alheia seria no mínimo imprudência. E, ademais, os que dela se aproximavam nunca tinham razões nobres, buscavam algo que ela deixara claro não estar disposta a conceder.

Jogos sensacionais de câmera, aliados à linda fotografia em preto e branco, fazem desse filme um espetáculo à parte. Impossível manter-se indiferente ao clima de terror criado, comparável ao de Psicose, mesmo que a história porventura não agrade. Cumpre ressaltar, ainda, a impressionante consistência da interpretação de Catherine Deneuve, bastante crível e sincera.

Nota: 7,5/10

Dec. 11th, 2007

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Entre a sodomia e noites musicais


É engraçado como, muitas vezes, através de um acontecimento ruim, somos obrigados a lembrar quem de fato somos.

Por forças superiores, estou impedido de exercer minhas atividades cotidianas há vários dias. Conquanto não me agrade ficar parado, redescobri em mim algumas coisas há muito olvidadas, a saber: meu prazer pela música e cinema.

Não parei, mesmo nos momentos de maior pressão durante esse ano, de ouvir música. Ouvia diariamente enquanto trabalhava. Quando não o fazia, estava me informando via rádio. O contato auditivo nunca foi suspenso. Mas, agora é diferente... Tenho feito nesses dias algo que tinha simplesmente tirado da minha rotina: dormir ouvindo música. "Que coisa insignificante, um parágrafo inteiro para dizer uma bobeira dessas?" alguém pode dizer, com algum fundamento. Porém, ignora tal pessoa toda a simbologia por trás dessa simples ação. Ao deitar escutando uma canção qualquer, dou-me o direito de desfrutar por aqueles instantes de uma liberdade de pensamento que eu havia me privado. Deitado à cama, viajo por pensamentos, despreocupado com o dia seguinte. Lembro de um feliz passado distante, que nem é tão distante, tampouco feliz. Ah, aquela velha nostalgia enganadora!

Baixei alguns álbuns ontem. Caso seja de interesse de alguém:  The Lonely H: Hair,  Augie March: Moo, You Bloody Choir,  The Seedy Seeds: Change States,  Eulogies: Eulogies, Black Lips: Good Bad Not Evil, The Weakerthans: Reunion Tour,  Sunday Drivers: Archetypes EP,  Eskimo Joe: Black Fingernails,  Red Wine, The Scotland Yard Gospel Choir: The Scotland Yard Gospel Choir,  The Glad Version: Make Islands,  Dinosaur Jr.: Beyond. Não cheguei a ouvir nada, praticamente. Só por ter algum tempo de procurar música, meu sangue começa a circular novamente, posso olhar no espelho e não ver um estranho.

Dois filmes assistidos: Saló ou os 120 Dias de Sodoma (1976) e Fargo (1996). Começando pelo último, uma triste decepção. Devo ter deixado escapar alguma boa tirada de humor negro, alguma tênue interpretação, não sei. Não me impressionou. Talvez eu reveja, para tirar a dúvida. Sobre Saló, bom...tenho evitado esse filme há vários meses. Futuramente farei uma resenha mais apropriada da referida película, por ora adianto apenas que não fiquei traumatizado nem nada do gênero, consegui assistir o filme sem vomitar, enfim. Essa era uma preocupação minha. O filme é forte, mesmo... Incrível como o homem é cruel. Incrível como precisamos de filmes para escancarar certas verdades por nós negligenciadas.

Estou acabando "A Náusea" (Sartre). Bom livro, menos complicado do que eu esperava. Acho, porém, que não estou preparado para desfrutar integralmente de todo o conteúdo. É o típico livro a ser guardado e relido daqui 20 anos.

Tenho concentrado meus estudos em História, ultimamente. Não por ser uma área que eu tenho grandes deficiências, talvez justamente o contrário. Gozo de certo prazer ao ler e entender os problemas de ontem que se refletem hoje. Coisa de gente estranha, claro.

O ano está acabando. O que fizemos? Não importa. Um mês para que esse não seja "só mais um ano". Mude o mundo nesses 20 dias, nem que seja aquele dentro de ti mesmo.
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A Náusea (1938)



O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que o continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir - e eu a desenrolo muito lentamente... Se pudesse me impedir de pensar! Tento, consigo: parece-me que minha cabeça se enche de fumaça... e eis que tudo recomeça: "Fumaça... não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento." Será que não termina nunca?

Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça... se eu cedo, virão para frente, aqui entre meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando minha existência.
                                                                                                                                                                         
                                                                                       
                                                                                                                                                                                                            Jean-Paul Sartre

Nov. 24th, 2007

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As bizarrices da vida OU Uma notícia gozada


Britânica de 24 anos tem 200 orgasmos por dia



A britânica Sarah Carmen, 24 anos, que sofre de uma síndrome rara, tem 200 orgasmos por dia, ou seja, um a cada sete minutos. Em entrevista ao jornal News of the World, ela contou que qualquer coisa a faz chegar ao clímax, como o barulho do trem, ou o som do secador de cabelo.

Durante a entrevista, de 40 minutos, Sarah afirmou ter tido oito orgasmos. Ela sofre da Síndrome de Excitação Sexual Persistente, que leva ao aumento do fluxo sanguíneo para os órgãos sexuais causando excitação por grandes períodos, mesmo sem que haja estímulo sexual.

"Quando começou, aos 19 anos, meu namorado estranhou a quantidade de orgasmo que eu atingia durante a transa", contou ela. "Muitas vezes queria ter o número necessário de orgasmos para acalmar-me. Às vezes, queria ter uma vida normal".

Sarah contou também que dispensa convites para ir a locais públicos com música alta e muita agitação. Ir à bares ou clubes barulhentos está fora de questão porque as vibrações a deixam doida. "Tenho que encontrar bares quietinhos. E eu tenho mais orgasmos quanto mais eu bebo, porque me relaxa, então eu tenho que beber muito pouco agora."

A situação mais hilária de orgasmo foi enquanto ela respondia a um questionário de pesquisa de mercado. "Eu tive um orgasmos na frente da pesquisadora. Ela sabia o que estava acontecendo e me olhou estranho. Eu tentei explicar que não podia ajudar, mas eu estava gemendo tanto que tive que sair andando".

Sarah está fazendo tratamento e segundo os médicos não há uma explicação científica provada para o problema dela. O mais provável é a infecção da região pélvica que pode estar estimulando os nervos do clitóris.

Fonte: http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI2095688-EI1141,00.html
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O mal de querer ser tudo OU o fado de não conseguir ser nada

- O que você quer ser quando crescer, filho? - a mãe pergunta.

- Quero ser jogador de futebol...não!, quero ser bombeiro...ou quem sabe ator....médico, pronto!

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Todos, em certo ponto da existência, tiveram esse tipo de dúvida. Não chega a ser de fato uma dúvida, pela simples razão de não questionarmos então as opções profundamente. Explico: a cada "encantamento", nossa visão mudava de alvo. Se o time de futebol fosse campeão, a idéia de ser jogador profissional florescia. Quando de um incêndio, o bombeiro virava o herói - se houvesse salvamento, óbvio. E assim por diante.

O legal de ser criança é a possibilidade ilimitada de sonhar. Ao passo que envelhecemos, os sonhos fazem menos e menos sentido, não por serem pouco razoáveis, mas por sermos menos crentes.

Eu sonhei ser várias coisas. Ainda sonho. Só vivo por ainda conseguir sonhar.

O meu problema é não conseguir ser feliz frente à desgraça do mundo todo. "Não sou pessimista, o mundo que é péssimo", disse certa vez José Saramago. Minha alegria - estado essencialmente efêmero - se desfaz assim que a notícia da morte de uma criança chega aos meus ouvidos. Uma criança! Aquela que sonha! Não, não posso aceitar. Não me venha com "isso é coisa do destino", "algo melhor a está esperando". Para o inferno com o destino! Ninguém tem direito de tirar a vida de outra pessoa, quanto mais um ser por definição puro!

Resolvo então mudar o mundo. Penso: o que eu gosto de fazer? Bom, eu gosto de música. É, música! Poderia ser um crítico musical. Aí me lembro que isso não impediria a fome no mundo. Sinto-me vazio. O que mais? Gosto de ler. Bom, poderia ser um professor! Letras, hein? Só que isso, para mim, é mais lazer do que profissão. Jornalismo! É, um correspondente no exterior, quem sabe? Ou sair à procura de problemas, denunciando práticas corruptas, enfim. Não me enxergo recebendo ordens dentro de uma redação, sem qualquer liberdade de criação, de um chefe possivelmente incompetente e ignorante, mas que é chefe, devendo ser acatado, pois. Coloco a idéia de lado.

Não sei mudar o mundo. Será que isso acontece pela força? Pela educação? Devo ser um educador? Um vingador? Um ditador? Alguns ditadores devem ter começado com boas intenções, fico a imaginar.

Tudo para dizer que amanhã tem vestibular. E a minha jornada para tentar mudar o mundo começa, oficialmente. Vamos ver.

Nov. 17th, 2007

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O timoneiro

- Não sou acaso timoneiro? - exclamei.

- Tu? - perguntou um homem alto e escuro, e passou as mãos pelos olhos, como se dissipasse um sonho.

Eu estivera ao timão em noites escuras, com a débil luz do farol sobre a minha cabeça, e agora tinha vindo aquele homem e queria pôr-me de lado. E como eu não cedesse, pôs o pé sobre o meu peito e empurrou-me lentamente contra o solo, enquanto eu continuava sempre aferrado à roda do timão e a arrancava ao cair. Então o homem apoderou-se dela, pô-la em seu lugar e me deu um empurrão, afastando-me. Refiz-me depressa, contudo, fui até a escotilha que levava ao alojamento da tripulação, e gritei:

- Tripulantes! Camaradas! Venham depressa! Um estranho tirou-me do timão!

Chegaram lentamente, subindo pela escadinha, eram formas poderosas, oscilantes, cansadas.

- Sou eu o timoneiro? - perguntei.

Assentiram, porém apenas tinham olhares para o estranho, ao qual rodeavam em semicírculo, e quando com voz de mando ele disse: "Não me aborreçam", reuniram-se, olharam-me assentindo com a cabeça e desceram outra vez a escadinha.

Que povo é este? Pensa também, ou apenas se arrasta sem sentido sobre a terra?

                                                                                                                                                                                            Franz Kafka

                                                                                                                                                                                          (Tradução de Torrieri Guimarães)

                    



  

Nov. 16th, 2007

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O mar leitoso

Sozinho à escuridão
sinto-me de todo iluminado.
Aforismos frívolos escapam
por entre minha boca murcha
e tento organizá-los
(ó idéias inúteis
que nunca hão de me deixar)
sem sucesso, naturalmente.
 
Alguém à porta entra assustado e pergunta:
do que estás a falar, ignóbil criatura?
Viro-me e respondo:
estou a falar deste e de outro mundo,
estou a falar de você e de mim,
de como tudo faz parte de uma mesma unidade,
e de como tal unidade é um suma inútil.
Que olhas?
Não mais olhas?
Percebo que já não há ninguém a fitar-me.
Nunca houve, a bem da verdade.
Estive sozinho o tempo todo,
deitado à sombra que me há de deitar
 
Acendo a luz
na tentativa de acender a vida.
Permaneço à penumbra
(lâmpada imprestável)
De súbito sinto uma claridade insuportável à face
um mar pastoso de leite a afogar meus olhos
Tento levantar os braços, mas não os sinto
(duvidando se já sequer os tive)
 
Não mais estou sozinho.
Ando sobre a pasta leitosa com magistral facilidade,
sendo louvado e aplaudido à distância.
Na alegria, vejo alguns infelizes se afogando.
Com desespero, tento puxá-los, mas estes se encolhem,
como que alegres por adentrar na alva massa.
Meus pés começam a afundar, qual areia movediça.
Cessam os louvores, o silêncio me ensurdece
e antes de afundar por completo, tento gritar
mas voz, não mais tenho.

                                                              Rafael Santos Rodrigues
 

Nov. 14th, 2007

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Kitchen Sink


Kitchen Sink
(New Zealand, 1989), 14 minutes, 35 mm, b/w
by Alison Maclean

Alison Maclean
Born in Ottawa, Canada, in 1958, Alison Maclean spent much of her childhood in Canada, emigrating to New Zealand with her parents as a teenager. She is a graduate of the Elam School of Fine Arts, Auckland, where she majored in film and sculpture. She now lives in New York, where directing music videos is one of her major activities.

Alison Maclean on Kitchen Sink
The story came to me in much the same way as events unfold for the woman in the film. I could see this hair sticking out of the plughole and on closer inspec-tion, the story began to emerge and to transform itself in quite a surprising way. It's a dark little fable about fear and desire - about a woman who re-fashions a monster into a man, and finds herself falling for her creation. In some sense I see it as a Pygmalion-type story, with the genders reversed.

Fonte: http://pov.imv.au.dk/Issue_13/section_4/artc2A.html

Parte I


Parte II


Enjoy.
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O velho Buk

 


The rat


with one punch, at the age of 16 and 1/2,
I knocked out my father,
a cruel shiny bastard with bad breath,
and I didn't go home for some time, only now and then
to try to get a dollar from
dear momma.

it was 1937 in Los Angeles and it was a hell of a
Vienna.

I ran with these older guys
but for them it was the same:
mostly breathing gasps of hard air
and robbing gas stations that didn't have any
money, and a few lucky among us
worked part-time as Western Union messenger
boys.

we slept in rented rooms that weren't rented
and we drank ale and wine
with the shades down
being quiet quiet
and then awakening the whole building
with a fistfight
breaking mirrors and chairs and lamps
and then running down the stairway
just before the police arrived
some of us soldiers of the future
running through the empty starving streets and alleys of
Los Angeles
and all of us
getting together later
in Pete's room
a small cube of space under a stairway, there we were,
packed in there
without women
without cigarettes
without anything to drink,
while the rich pawed away at their many
choices and the young girls let
them,
the same girls who spit at our shadows as we
walked past.

it was a hell of a
Vienna.

3 of us under that stairway
were killed in World War II.

another one is now manager of a mattress
company.

me? I'm 30 years older,
the town is 4 or 5 times as big
but just as rotten
and the girls still spit on my
shadow, another war is building for another
reason, and I can hardly get a job now
for the same reason I couldn't then:
I don't know anything, I can't do
anything.

sex? well, just the old ones knock on my door after
midnight. I can't sleep and they see the lights and are
curious.

the old ones. their husbands no longer want them,
their children are gone, and if they show me enough good
leg (the legs go last)
I go to bed with
them.

so the old women bring me love and I smoke their cigarettes
as they
talk talk talk
and then we go to bed again and
I bring them love
and they feel good and
talk
until the sun comes
up, then we
sleep.

it's a hell of a Paris.

                                          
                                                        Charles Bukowski (1972)

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A leucemia levou o velho Bukowski em 1994, aos 73 anos. Seu epitáfio dizia: Nem tente (Don't Try).

Além de sua poesia, Bukowski é também cultuado pelos diversos contos e romances que escreveu, sempre seguindo a mesma linha. Ora temos um velho trabalhador braçal (Kid Foguete no matadouro), ora um apostador frustado no jóquei (Vulva, Kant, e uma casa feliz). O ambiente retratado nunca é o nosso mundo fútil, composto por pessoas criadas à base de leite e pêra. Ao contrário, quartos de motéis sujos, bares imundos, os "losers" da sociedade, são todos constantes no universo bukowskiano.

Não tome o velho Buk como um mero bêbado. Sim, Henry Charles Bukowski tinha especial interesse (e necessidade) pela bebida, mas esse solitário escritor não pode de forma alguma ser reduzido a esse estereótipo. Apreciador de Mozart e Schoppenhauer, "the dirty old man" fascinou gerações pela sua sinceridade e estilo antiacadêmico, atraindo aqueles leitores cansados do mundo imaginário retratado por vários escritores (alguns muito bons, inclusive).

Fica aqui a recomendação a todos.

Nov. 13th, 2007

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Cadelowned

Homem se casa com cadela na Índia



O indiano P. Selvakumar casou-se com a cadela vira-lata Selvi em uma tradicional cerimônia hindu em Manamadurai, no sul do país, no último final de semana. A "noiva" estava usando a tradicional roupa de casamento, enfeitada com flores.

Selvakumar decidiu casar-se com uma cadela por acreditar que está "amaldiçoado", após ter matado dois outros cachorros por apedrejamento, há 15 anos.

"Depois disso minhas pernas e braços ficaram paralisados e eu perdi a audição em um dos ouvidos", ele afirmou ao jornal "Hindustan Times".

Selvakumar consultou um astrólogo, que lhe disse que a única forma de curar a maldição era casando-se com uma cachorra.

Segundo o jornal local, a família de Selvakumar ganhou uma festa após a cerimônia. Já a cadela Selvi, um pão doce.

Fonte: G1
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Conclusões/Dúvidas:

1) Devemos pensar bem antes de casar.

2) Essa cadela tem um péssimo gosto, cara feio da porra.

3) Será que vai rolar lua de mel?

4) E Como é que pode ser verdade uma porra dessa, hein, Batiman?

Gute Nacht.
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Sobre Fernando e as pessoas



LISBON REVISITED

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo ...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

                                                                      Álvaro de Campos (1923)


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Algumas coisas que tenho que fazer antes de desviver:

1) Ler a obra completa de Fernando Pessoa.
2) Tornar meu humor independente de fatores externos.
3) Admirar e me contentar com pequenas coisas.
4) Ajudar de alguma forma a melhorar o mundo em que vivemos.
5) Escrever um livro de ficção.
6) Escrever um livro de não-ficção.
7) Aprender a não ser tão exigente comigo mesmo.
8) Deixar de me comparar aos outros.
9) Não deixar que apaguem o meu jeito palhaço de ser.
10) Parar de fazer listas que ninguém lê :)

Boa noite.

Sep. 4th, 2007

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(no subject)

Estou achando que devo voltar a escrever por aqui.

Por ora, vou dormir.

A vida é beijo doce em boca amarga.

Jul. 26th, 2007

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Um Cão Andaluz (Un Chien Andalou)

Surrealismo foi um movimento artístico e literário surgido primariamente em Paris dos anos 20, inserido no contexto das vanguardas que viriam a definir o modernismo, reunindo artistas anteriormente ligados ao Dadaísmo e posteriormente expandido para outros países. Fortemente influenciado pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud (1856-1939), o surrealismo enfatiza o papel do inconsciente na atividade criativa.

As características deste estilo: uma combinação do representativo, do abstrato, e do psicológico. Segundo os surrealistas, a arte deve se libertar das exigências da lógica e da razão e ir além da consciência quotidiana, expressando o inconsciente e os sonhos.
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Nome original:
Un Chien Andalou
País: França
Duração: Cerca de 17 minutos
Ano de Lançamento: 1928
Cor: Preto e branco
Atores: Pierre Batcheff, Simone Mareuil, Luis Buñuel, Salvador Dalí



Jul. 25th, 2007

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O bilhete premiado

Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

— Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje — disse sua mulher tirando a mesa. — Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.

— Saiu — respondeu Ivan Dmítritch —, mas você não penhorou seu bilhete?

— Não. Paguei os juros na terça.

— Qual é o número?

— A série é 9499, bilhete 26.

— Então... Vejamos... 9499 e 26.

Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, corno que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e corno se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.

— Macha — disse com voz surda -, o 9499 está aqui. A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando.

— 9499? — perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.

— Sim, sim... Está, de verdade!

— E o número do bilhete?

— E mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência... espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?...

Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. E tão delicioso, tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!

— A nossa série está — disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. — Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!

— Está bem, mas agora, olhe.

— Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se esta na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o numero 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?

Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas Os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a idéia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.

Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.

— E se tivermos ganho? — disse. — Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, 25 mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova... uma viagem... pagamento de dívidas e assim por diante. Os 40 mil restantes colocaria no banco, para render juros...

— Realmente, uma propriedade seria ótimo — disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. — Nalgum canto, na região de Tula ou de Orlóv... Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.

E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranqüilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília... Faz calor... O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão. Ao pôr-do-sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai n'água. Na água, Os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces... À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.

— Sim, seria bom comprar uma propriedade — diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.

Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto — tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra... Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se...

Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas — não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!

Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.

— Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.

E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália... Para a Índia!

— Eu também iria para o estrangeiro correndo — disse a mulher. — Mas olhe o número do bilhete!

— Espere! Daqui a pouco...

Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro...

“Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”

E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.

“Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas... para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo... Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio... Iria escondê-lo de mim... Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.”

Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando Os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.

Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam-lhe agora odiosos, repulsivos.

“São uns canalhas”, ele pensou.

E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.

Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas idéias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.

“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:

— Série 9499, bilhete 46! Não 26!

A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.

— Só o diabo sabe — disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. — Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos? Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

                                                                                                          
                                                
                                                  Anton Tchekhov
                                                  (Tradução de Aurora Bernardini)

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Queria entender o que se passa comigo. Quanto mais eu leio, mais estudo, a sensação de pequenez e insignificância dentro de mim aumenta.

Parece que ainda tenho tantas coisas a aprender. Infinitas coisas, na verdade, o que extingue qualquer chance de êxito em uma possível busca pela erudição total.

Sei que, hoje, eu já tenho mais conhecimento do que pessoas muito mais velhas e tudo mais, porém isto não é justificativa bastante para findar meu açoite interior. Castigo-me sim, mentalmente, por saber que outras pessoas desfrutam de maior sabedoria que a minha. Inveja? Não, pura incompetência.

Não me contento em ser o "melhor dentre os piores", tampouco "o pior dentre os melhores". Sinceramente, duvido do meu contentamento nesse aspecto aconteça o que acontecer, por mais erudito que eu fique, sentirei-me sempre inferior.

(...)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
(...)
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
(...)
                                                     Álvaro de Campos

Jul. 23rd, 2007

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Para acabar o dia bem

Pestis eram vivus - moriens tua mors ero.
Vivendo era teu açoite - morto, serei tua morte.

                                                Martinho Lutero
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