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Dec. 11th, 2007

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A Náusea (1938)



O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que o continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir - e eu a desenrolo muito lentamente... Se pudesse me impedir de pensar! Tento, consigo: parece-me que minha cabeça se enche de fumaça... e eis que tudo recomeça: "Fumaça... não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento." Será que não termina nunca?

Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça... se eu cedo, virão para frente, aqui entre meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando minha existência.
                                                                                                                                                                         
                                                                                       
                                                                                                                                                                                                            Jean-Paul Sartre

Nov. 17th, 2007

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O timoneiro

- Não sou acaso timoneiro? - exclamei.

- Tu? - perguntou um homem alto e escuro, e passou as mãos pelos olhos, como se dissipasse um sonho.

Eu estivera ao timão em noites escuras, com a débil luz do farol sobre a minha cabeça, e agora tinha vindo aquele homem e queria pôr-me de lado. E como eu não cedesse, pôs o pé sobre o meu peito e empurrou-me lentamente contra o solo, enquanto eu continuava sempre aferrado à roda do timão e a arrancava ao cair. Então o homem apoderou-se dela, pô-la em seu lugar e me deu um empurrão, afastando-me. Refiz-me depressa, contudo, fui até a escotilha que levava ao alojamento da tripulação, e gritei:

- Tripulantes! Camaradas! Venham depressa! Um estranho tirou-me do timão!

Chegaram lentamente, subindo pela escadinha, eram formas poderosas, oscilantes, cansadas.

- Sou eu o timoneiro? - perguntei.

Assentiram, porém apenas tinham olhares para o estranho, ao qual rodeavam em semicírculo, e quando com voz de mando ele disse: "Não me aborreçam", reuniram-se, olharam-me assentindo com a cabeça e desceram outra vez a escadinha.

Que povo é este? Pensa também, ou apenas se arrasta sem sentido sobre a terra?

                                                                                                                                                                                            Franz Kafka

                                                                                                                                                                                          (Tradução de Torrieri Guimarães)

                    



  

Nov. 16th, 2007

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O mar leitoso

Sozinho à escuridão
sinto-me de todo iluminado.
Aforismos frívolos escapam
por entre minha boca murcha
e tento organizá-los
(ó idéias inúteis
que nunca hão de me deixar)
sem sucesso, naturalmente.
 
Alguém à porta entra assustado e pergunta:
do que estás a falar, ignóbil criatura?
Viro-me e respondo:
estou a falar deste e de outro mundo,
estou a falar de você e de mim,
de como tudo faz parte de uma mesma unidade,
e de como tal unidade é um suma inútil.
Que olhas?
Não mais olhas?
Percebo que já não há ninguém a fitar-me.
Nunca houve, a bem da verdade.
Estive sozinho o tempo todo,
deitado à sombra que me há de deitar
 
Acendo a luz
na tentativa de acender a vida.
Permaneço à penumbra
(lâmpada imprestável)
De súbito sinto uma claridade insuportável à face
um mar pastoso de leite a afogar meus olhos
Tento levantar os braços, mas não os sinto
(duvidando se já sequer os tive)
 
Não mais estou sozinho.
Ando sobre a pasta leitosa com magistral facilidade,
sendo louvado e aplaudido à distância.
Na alegria, vejo alguns infelizes se afogando.
Com desespero, tento puxá-los, mas estes se encolhem,
como que alegres por adentrar na alva massa.
Meus pés começam a afundar, qual areia movediça.
Cessam os louvores, o silêncio me ensurdece
e antes de afundar por completo, tento gritar
mas voz, não mais tenho.

                                                              Rafael Santos Rodrigues
 

Nov. 14th, 2007

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O velho Buk

 


The rat


with one punch, at the age of 16 and 1/2,
I knocked out my father,
a cruel shiny bastard with bad breath,
and I didn't go home for some time, only now and then
to try to get a dollar from
dear momma.

it was 1937 in Los Angeles and it was a hell of a
Vienna.

I ran with these older guys
but for them it was the same:
mostly breathing gasps of hard air
and robbing gas stations that didn't have any
money, and a few lucky among us
worked part-time as Western Union messenger
boys.

we slept in rented rooms that weren't rented
and we drank ale and wine
with the shades down
being quiet quiet
and then awakening the whole building
with a fistfight
breaking mirrors and chairs and lamps
and then running down the stairway
just before the police arrived
some of us soldiers of the future
running through the empty starving streets and alleys of
Los Angeles
and all of us
getting together later
in Pete's room
a small cube of space under a stairway, there we were,
packed in there
without women
without cigarettes
without anything to drink,
while the rich pawed away at their many
choices and the young girls let
them,
the same girls who spit at our shadows as we
walked past.

it was a hell of a
Vienna.

3 of us under that stairway
were killed in World War II.

another one is now manager of a mattress
company.

me? I'm 30 years older,
the town is 4 or 5 times as big
but just as rotten
and the girls still spit on my
shadow, another war is building for another
reason, and I can hardly get a job now
for the same reason I couldn't then:
I don't know anything, I can't do
anything.

sex? well, just the old ones knock on my door after
midnight. I can't sleep and they see the lights and are
curious.

the old ones. their husbands no longer want them,
their children are gone, and if they show me enough good
leg (the legs go last)
I go to bed with
them.

so the old women bring me love and I smoke their cigarettes
as they
talk talk talk
and then we go to bed again and
I bring them love
and they feel good and
talk
until the sun comes
up, then we
sleep.

it's a hell of a Paris.

                                          
                                                        Charles Bukowski (1972)

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A leucemia levou o velho Bukowski em 1994, aos 73 anos. Seu epitáfio dizia: Nem tente (Don't Try).

Além de sua poesia, Bukowski é também cultuado pelos diversos contos e romances que escreveu, sempre seguindo a mesma linha. Ora temos um velho trabalhador braçal (Kid Foguete no matadouro), ora um apostador frustado no jóquei (Vulva, Kant, e uma casa feliz). O ambiente retratado nunca é o nosso mundo fútil, composto por pessoas criadas à base de leite e pêra. Ao contrário, quartos de motéis sujos, bares imundos, os "losers" da sociedade, são todos constantes no universo bukowskiano.

Não tome o velho Buk como um mero bêbado. Sim, Henry Charles Bukowski tinha especial interesse (e necessidade) pela bebida, mas esse solitário escritor não pode de forma alguma ser reduzido a esse estereótipo. Apreciador de Mozart e Schoppenhauer, "the dirty old man" fascinou gerações pela sua sinceridade e estilo antiacadêmico, atraindo aqueles leitores cansados do mundo imaginário retratado por vários escritores (alguns muito bons, inclusive).

Fica aqui a recomendação a todos.

Nov. 13th, 2007

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Sobre Fernando e as pessoas



LISBON REVISITED

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo ...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

                                                                      Álvaro de Campos (1923)


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Algumas coisas que tenho que fazer antes de desviver:

1) Ler a obra completa de Fernando Pessoa.
2) Tornar meu humor independente de fatores externos.
3) Admirar e me contentar com pequenas coisas.
4) Ajudar de alguma forma a melhorar o mundo em que vivemos.
5) Escrever um livro de ficção.
6) Escrever um livro de não-ficção.
7) Aprender a não ser tão exigente comigo mesmo.
8) Deixar de me comparar aos outros.
9) Não deixar que apaguem o meu jeito palhaço de ser.
10) Parar de fazer listas que ninguém lê :)

Boa noite.

Jul. 25th, 2007

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O bilhete premiado

Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

— Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje — disse sua mulher tirando a mesa. — Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.

— Saiu — respondeu Ivan Dmítritch —, mas você não penhorou seu bilhete?

— Não. Paguei os juros na terça.

— Qual é o número?

— A série é 9499, bilhete 26.

— Então... Vejamos... 9499 e 26.

Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, corno que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e corno se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.

— Macha — disse com voz surda -, o 9499 está aqui. A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando.

— 9499? — perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.

— Sim, sim... Está, de verdade!

— E o número do bilhete?

— E mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência... espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?...

Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. E tão delicioso, tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!

— A nossa série está — disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. — Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!

— Está bem, mas agora, olhe.

— Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se esta na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o numero 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?

Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas Os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a idéia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.

Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.

— E se tivermos ganho? — disse. — Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, 25 mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova... uma viagem... pagamento de dívidas e assim por diante. Os 40 mil restantes colocaria no banco, para render juros...

— Realmente, uma propriedade seria ótimo — disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. — Nalgum canto, na região de Tula ou de Orlóv... Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.

E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranqüilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília... Faz calor... O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão. Ao pôr-do-sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai n'água. Na água, Os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces... À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.

— Sim, seria bom comprar uma propriedade — diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.

Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto — tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra... Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se...

Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas — não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!

Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.

— Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.

E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália... Para a Índia!

— Eu também iria para o estrangeiro correndo — disse a mulher. — Mas olhe o número do bilhete!

— Espere! Daqui a pouco...

Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro...

“Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”

E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.

“Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas... para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo... Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio... Iria escondê-lo de mim... Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.”

Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando Os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.

Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam-lhe agora odiosos, repulsivos.

“São uns canalhas”, ele pensou.

E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.

Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas idéias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.

“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:

— Série 9499, bilhete 46! Não 26!

A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.

— Só o diabo sabe — disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. — Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos? Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

                                                                                                          
                                                
                                                  Anton Tchekhov
                                                  (Tradução de Aurora Bernardini)

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Queria entender o que se passa comigo. Quanto mais eu leio, mais estudo, a sensação de pequenez e insignificância dentro de mim aumenta.

Parece que ainda tenho tantas coisas a aprender. Infinitas coisas, na verdade, o que extingue qualquer chance de êxito em uma possível busca pela erudição total.

Sei que, hoje, eu já tenho mais conhecimento do que pessoas muito mais velhas e tudo mais, porém isto não é justificativa bastante para findar meu açoite interior. Castigo-me sim, mentalmente, por saber que outras pessoas desfrutam de maior sabedoria que a minha. Inveja? Não, pura incompetência.

Não me contento em ser o "melhor dentre os piores", tampouco "o pior dentre os melhores". Sinceramente, duvido do meu contentamento nesse aspecto aconteça o que acontecer, por mais erudito que eu fique, sentirei-me sempre inferior.

(...)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
(...)
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
(...)
                                                     Álvaro de Campos

Jul. 22nd, 2007

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Sobre ter um blog

Há muito penso em ter um blog ou algo do gênero.

Há muito eu penso que pensar em ter blogs ou coisas do gênero, são pensamentos desnecessários, ignóbeis.

Afinal, ter um blog significa o que, mesmo?

Não estou interessado em mostrar para pessoas que muitas vezes não conheço uma realidade que elas sequer participam, ou mesmo ficar exibindo dúzias de fotos por demais felizes com vários amigos a fim de provar o quão popular e simpático eu sou, neste caso talvez por não ser popular, ou por não ter os amigos necessários para tal tarefa.

Por outro lado, tenho essa coisa dentro de mim, algo como uma força que às vezes pede para ser liberada, mas que eu rapidamente ignoro e, quando isso não é possível, escondo-a atrás de pensamentos a princípios mais urgentes, importantes. Essa força melhor se transmite oralmente, imagino. Mas, em sã consciência, quem gostaria de ficar ouvindo devaneios e filosofias vãs de alguem qualquer por horas a fio? Ora, os outros têm mais o quer fazer! Resta-me, pois, o terreno das palavras, sim, não há escapatória. Chegando nesse ponto, porém, caio num terrível dilema: onde escrever e, afinal, isso importa a alguém senão a mim? A resposta imediata seria escrever em alguma espécie de diário e escondê-lo dos olhos alheios. Após essa simples constatação, bate-me novamente uma súbita dúvida: se meus pensamentos na maioria das vezes não se restringem a minha pessoa, por que mantê-los guardados se porventura eles podem auxiliar alguém ou talvez ampliar campos de visão?

Vou contra meus princípios, então. Crio, finalmente, um tal blog. Quem o lerá? Alguém o lerá? Terão o que ler? Bom, as variáveis aqui são tantas que eu não sou capaz de dar uma resposta precisa. Nem você. Nem ninguém.

O que esperar aqui? Possivelmente encontrarão alguns textos interessantes de autores consagrados ou não, que por algum motivo eu vim a ter contato e tenho vontade de transmitir. Filmes, também. Talvez não tão convencionais, mas desde já aprenda que este lugar, assim como eu, é muito pouco ordinário, sinta-se a vontade para espressar todas as estranhezas e idéias tão peculiares a sua pessoa. Tem a música também, a boa e velha música. De Liars á Sufjan Stevens. De Bycicles à Sex Pistols. Espere de tudo. E de nada.

Por enquanto, e talvez para sempre, é só.
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Guardador de Rebanhos - V

     Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?
     A de serem verdes e copadas e de terem ramos
     E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
     A nós, que não sabemos dar por elas.
     Mas que melhor metafísica que a delas,
     Que é a de não saber para que vivem
     Nem saber que o não sabem?

     "Constituição íntima das cousas"...
     "Sentido íntimo do Universo"...
     Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
     É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
     É como pensar em razões e fins
     Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
     Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

     Pensar no sentido íntimo das cousas
     É acrescentado, como pensar na saúde
     Ou levar um copo à água das fontes.

     O único sentido íntimo das cousas
     É elas não terem sentido íntimo nenhum.  
     Não acredito em Deus porque nunca o vi.  
     Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
     Sem dúvida que viria falar comigo
     E entraria pela minha porta dentro
     Dizendo-me, Aqui estou!

     (Isto é talvez ridículo aos ouvidos
     De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
     Não compreende quem fala delas
     Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

     Mas se Deus é as flores e as árvores
     E os montes e sol e o luar,
     Então acredito nele,
     Então acredito nele a toda a hora,
     E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
     E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

     Mas se Deus é as árvores e as flores
     E os montes e o luar e o sol,
     Para que lhe chamo eu Deus?
     Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
     Porque, se ele se fez, para eu o ver,
     Sol e luar e flores e árvores e montes,
     Se ele me aparece como sendo árvores e montes
     E luar e sol e flores,
     É que ele quer que eu o conheça
     Como árvores e montes e flores e luar e sol.  

     E por isso eu obedeço-lhe,
     (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).  
     Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
     Como quem abre os olhos e vê,
     E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
     E amo-o sem pensar nele,
     E penso-o vendo e ouvindo,
     E ando com ele a toda a hora.

                                                             Alberto Caeiro
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February 2008

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