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Nov. 16th, 2007

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O mar leitoso

Sozinho à escuridão
sinto-me de todo iluminado.
Aforismos frívolos escapam
por entre minha boca murcha
e tento organizá-los
(ó idéias inúteis
que nunca hão de me deixar)
sem sucesso, naturalmente.
 
Alguém à porta entra assustado e pergunta:
do que estás a falar, ignóbil criatura?
Viro-me e respondo:
estou a falar deste e de outro mundo,
estou a falar de você e de mim,
de como tudo faz parte de uma mesma unidade,
e de como tal unidade é um suma inútil.
Que olhas?
Não mais olhas?
Percebo que já não há ninguém a fitar-me.
Nunca houve, a bem da verdade.
Estive sozinho o tempo todo,
deitado à sombra que me há de deitar
 
Acendo a luz
na tentativa de acender a vida.
Permaneço à penumbra
(lâmpada imprestável)
De súbito sinto uma claridade insuportável à face
um mar pastoso de leite a afogar meus olhos
Tento levantar os braços, mas não os sinto
(duvidando se já sequer os tive)
 
Não mais estou sozinho.
Ando sobre a pasta leitosa com magistral facilidade,
sendo louvado e aplaudido à distância.
Na alegria, vejo alguns infelizes se afogando.
Com desespero, tento puxá-los, mas estes se encolhem,
como que alegres por adentrar na alva massa.
Meus pés começam a afundar, qual areia movediça.
Cessam os louvores, o silêncio me ensurdece
e antes de afundar por completo, tento gritar
mas voz, não mais tenho.

                                                              Rafael Santos Rodrigues
 

Nov. 14th, 2007

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O velho Buk

 


The rat


with one punch, at the age of 16 and 1/2,
I knocked out my father,
a cruel shiny bastard with bad breath,
and I didn't go home for some time, only now and then
to try to get a dollar from
dear momma.

it was 1937 in Los Angeles and it was a hell of a
Vienna.

I ran with these older guys
but for them it was the same:
mostly breathing gasps of hard air
and robbing gas stations that didn't have any
money, and a few lucky among us
worked part-time as Western Union messenger
boys.

we slept in rented rooms that weren't rented
and we drank ale and wine
with the shades down
being quiet quiet
and then awakening the whole building
with a fistfight
breaking mirrors and chairs and lamps
and then running down the stairway
just before the police arrived
some of us soldiers of the future
running through the empty starving streets and alleys of
Los Angeles
and all of us
getting together later
in Pete's room
a small cube of space under a stairway, there we were,
packed in there
without women
without cigarettes
without anything to drink,
while the rich pawed away at their many
choices and the young girls let
them,
the same girls who spit at our shadows as we
walked past.

it was a hell of a
Vienna.

3 of us under that stairway
were killed in World War II.

another one is now manager of a mattress
company.

me? I'm 30 years older,
the town is 4 or 5 times as big
but just as rotten
and the girls still spit on my
shadow, another war is building for another
reason, and I can hardly get a job now
for the same reason I couldn't then:
I don't know anything, I can't do
anything.

sex? well, just the old ones knock on my door after
midnight. I can't sleep and they see the lights and are
curious.

the old ones. their husbands no longer want them,
their children are gone, and if they show me enough good
leg (the legs go last)
I go to bed with
them.

so the old women bring me love and I smoke their cigarettes
as they
talk talk talk
and then we go to bed again and
I bring them love
and they feel good and
talk
until the sun comes
up, then we
sleep.

it's a hell of a Paris.

                                          
                                                        Charles Bukowski (1972)

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A leucemia levou o velho Bukowski em 1994, aos 73 anos. Seu epitáfio dizia: Nem tente (Don't Try).

Além de sua poesia, Bukowski é também cultuado pelos diversos contos e romances que escreveu, sempre seguindo a mesma linha. Ora temos um velho trabalhador braçal (Kid Foguete no matadouro), ora um apostador frustado no jóquei (Vulva, Kant, e uma casa feliz). O ambiente retratado nunca é o nosso mundo fútil, composto por pessoas criadas à base de leite e pêra. Ao contrário, quartos de motéis sujos, bares imundos, os "losers" da sociedade, são todos constantes no universo bukowskiano.

Não tome o velho Buk como um mero bêbado. Sim, Henry Charles Bukowski tinha especial interesse (e necessidade) pela bebida, mas esse solitário escritor não pode de forma alguma ser reduzido a esse estereótipo. Apreciador de Mozart e Schoppenhauer, "the dirty old man" fascinou gerações pela sua sinceridade e estilo antiacadêmico, atraindo aqueles leitores cansados do mundo imaginário retratado por vários escritores (alguns muito bons, inclusive).

Fica aqui a recomendação a todos.

Nov. 13th, 2007

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Sobre Fernando e as pessoas



LISBON REVISITED

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo ...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

                                                                      Álvaro de Campos (1923)


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Algumas coisas que tenho que fazer antes de desviver:

1) Ler a obra completa de Fernando Pessoa.
2) Tornar meu humor independente de fatores externos.
3) Admirar e me contentar com pequenas coisas.
4) Ajudar de alguma forma a melhorar o mundo em que vivemos.
5) Escrever um livro de ficção.
6) Escrever um livro de não-ficção.
7) Aprender a não ser tão exigente comigo mesmo.
8) Deixar de me comparar aos outros.
9) Não deixar que apaguem o meu jeito palhaço de ser.
10) Parar de fazer listas que ninguém lê :)

Boa noite.
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