A piada
O ar estava mais leve naquele dia. Mal sentia o vento passando à sua face. Finalmente realizava o sonho de voar. Agora faltava pouco. Em breve se livraria de todas as algemas terrenas.
Enquanto caía, teve tempo de relembrar sua vida. Ora, parte dela. Nunca teve uma boa memória, não seria nesse momento fatal que haveria uma mudança. Aliás, não muito havia a ser lembrado. Pensou no último verão, há alguns meses. O sol escaldante a ferver seus pulsos cortados. Fracasso. Acordara, decepcionada, numa alva cama de hospital, mãe chorando, quase que se sentindo culpada, ao menos foi o que quis acreditar naquele momento de fúria. Por que a tinham salvo? Quem tinha direito a sua vida senão ela própria? No lugar de sua progenitora, sentiria também remorso por possuir esse egoísmo doentio de prender os filhos ao lado, mesmo que evidentemente infelizes. Enfim, não queria ter raiva de sua mãe. Queria morrer em paz. Tentou lembrar de um momento feliz, sem sucesso.
O chão aproximava-se mais e mais, menos de 20 metros pela frente. Uma estranha angústia subiu-lhe à boca. Sentiu-se fraca. Poderia morrer sem nunca ter experimentado alegria? Não teria mesmo dado sequer UMA risada durante toda a vida? Ou estaria sob efeito de uma espécie de bloqueio mental a fim de justificar sua entrega final? Ora, ela fora feliz! A perda do contentamento que ocasionara a depressão, certo? Lembra, lembra! O chão ficava mais próximo, a aflição aumentava. Seus irmãos pequenos brincando no parque...NÃO!, ela não tinha irmãos. Seus avós fazendo carinho, o velho calor familiar... Lembrou-se logo que desde sempre vivera só com sua mãe, nunca chegou a conhecer outro parente! História longa, não havia tempo para isso. 10 metros. 16 anos de vida e nada de prazer? 5 metros. Começava a lembrar de uma piada que ouvira de um garoto sacana querendo soar simpático, menino este que viria a ser seu primeiro namorado, mas acabou atingindo o chão antes de concluir o raciocínio. Rapidamente formou-se uma considerável poça de sangue ao seu redor, alguns pedaços de dentes espalhados pelo chão, e muita, mas muita, decepção no ar. A piada, agora concluía, não tinha a menor graça.
